{"id":98,"date":"2024-01-24T17:04:39","date_gmt":"2024-01-24T20:04:39","guid":{"rendered":"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/?p=98"},"modified":"2024-04-29T18:18:53","modified_gmt":"2024-04-29T21:18:53","slug":"98-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/98-2\/","title":{"rendered":"RELATO \u2013 TRILHA DO RIO\u00a0BRANQUINHO"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"744\" height=\"280\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-6.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-99\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-6.png 744w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-6-300x113.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 89vw, (max-width: 767px) 82vw, 740px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>De uma beleza sem igual, a regi\u00e3o da serra do mar nos premia com muitas trilhas, belas paisagens e muita, muita aventura. Fui convidado por um amigo para realizar uma trilha que para ele \u00e9 uma verdadeira tradi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 33 anos que ele percorre este caminho sempre na mesma \u00e9poca do ano.<\/p>\n\n\n\n<p>A trilha do Rio Branquinho n\u00e3o \u00e9 um percurso f\u00e1cil. A todo momento ela te desafia: Caminhada sobre leito de ferrovia, descidas em barrancos super inclinados e 90% do tempo p\u00e9s molhados s\u00e3o apenas alguns dos desafios que se deve esperar durante esta aventura.<\/p>\n\n\n\n<p>Com um percurso estimado em 58 Km, mais aproximadamente 14,5 Km at\u00e9 o ponto de \u00f4nibus mais pr\u00f3ximo, a nossa caminhada teve aproximadamente 72 Km de extens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O convite<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Soube dessa trilha a alguns anos, quando o tio do meu cunhado me contou sobre esta tradi\u00e7\u00e3o. Embora eu tivesse certa experi\u00eancia com trilhas leves e moderadas, eu tinha muito sobrepeso e uma trilha t\u00e3o intensa estava muito al\u00e9m das minhas capacidades f\u00edsicas. Os anos passaram, eu me submeti a um procedimento cir\u00fargico para tratamento da obesidade e eliminei muito peso. Em um anivers\u00e1rio da fam\u00edlia, veio o convite para realizar esta caminhada. Aceitei na hora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Prepara\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com tempo de sobra para planejar, comecei a reunir e revisar equipamentos, ouvir os relatos das trilhas anteriores que meu amigo j\u00e1 havia realizado. Por\u00e9m como um bom SV, a gente acaba exagerando em algumas coisas. E o exagero em equipamentos n\u00e3o combina com caminhadas longas e cansativas. Conversando com amigos experientes em longas caminhadas, fui aconselhado a eliminar diversas redund\u00e2ncias de equipamentos, tais como facas, roupas e material de apoio como ferramentas. E ainda paguei caro por insistir em levar algumas redund\u00e2ncias e levei muita coisa sem necessidade alguma.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica aqui um aprendizado muito importante: escolher bons equipamentos, conhecer e respeitar os limites operacionais deles \u00e9 melhor do que levar redund\u00e2ncias. Pois cada grama na mochila conta. Mesmo com as orienta\u00e7\u00f5es dos amigos, eu vivi isso na pele nesta jornada.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esta aventura utilizei os itens mais comuns usados em acampamentos. Quase nenhum material super tecnol\u00f3gico. Isto teve um pre\u00e7o (peso) mas fazia parte da minha premissa em n\u00e3o gastar muito com a viagem e exercitar a minha criatividade para resolver alguns problemas que sabia que teria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Separei a prepara\u00e7\u00e3o em t\u00f3picos:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"975\" height=\"604\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-7.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-100\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-7.png 975w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-7-300x186.png 300w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-7-768x476.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Um dos numerosos checklists para a aventura. Revisitei diversas vezes esses itens e deixei alguns de fora por orienta\u00e7\u00e3o de amigos mais experientes.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para <strong>dormir<\/strong>, fui no b\u00e1sico e funcional: Uma barraca, uma lona, um isolante t\u00e9rmico infl\u00e1vel e um saco de dormir. Tudo bem comum. O \u00fanico item que adquiri para essa trilha foi o isolante t\u00e9rmico, pois queria algo mais compacto que o EVA, que \u00e9 muito volumoso e ia ficar enroscando durante a trilha. E foi a melhor escolha que eu poderia ter feito.<\/p>\n\n\n\n<p>Para <strong>comer <\/strong>eu levei um kit bem b\u00e1sico de fogareiro a g\u00e1s, com uma caneca de 900ml. Preparei 3 refei\u00e7\u00f5es usando macarr\u00e3o tipo l\u00e1men, enriquecido com prote\u00ednas e temperos alternativos a aquele salzinho cancer\u00edgeno. Levei tamb\u00e9m alguns snacks como cenoura, ma\u00e7a, pa\u00e7oquinha e barras de prote\u00edna e cereais. Confesso que dei uma exagerada na comida, poderia ter passado bem com metade do que levei. Minha falta de experi\u00eancia me fez carregar uns 500g extra de comida que acabei distribuindo pros amigos mais famintos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para <strong>beber <\/strong>eu levei uma bolsa de hidrata\u00e7\u00e3o de 3 litros e um cantil de 900ml. Para esta trilha o cantil foi mais que suficiente pois existem muitos pontos de \u00e1gua durante o caminho. Levei tamb\u00e9m alguns saches de repositor eletrol\u00edtico em p\u00f3. Basicamente a vers\u00e3o em p\u00f3 do Gatorade. Ajudou muito a levantar o moral ap\u00f3s a descida infernal da encosta.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto onde errei bastante foram nos itens de <strong>vestu\u00e1rio<\/strong>. Al\u00e9m da roupa do corpo (Cal\u00e7a, segunda pele, camiseta e gandola) levei uma muda de roupa extra, uma capa de chuva e alguns pares de meias. A ideia era trocar as meias para tentar manter os p\u00e9s secos, mas isto se provou imposs\u00edvel, dada a quantidade de travessias de rio que este trajeto nos proporciona. A capa de chuva foi e voltou sem ser utilizada, 250 gramas que poderiam ter ficado em casa. Mesmo com tempo frio e uma garoa pesada na caminhada sobre os trilhos, n\u00e3o a utilizei, pois, estava com tanto calor que iria suar e ficar molhado do mesmo jeito. A gandola militar \u00e0 primeira vista, parece adequada ao ambiente da caminhada, mas as costuras duplas dos ombros me incomodaram bastante. Tanto que no segundo dia estava com tanta raiva dela que acabei dando para um colega. Roupas militares definitivamente n\u00e3o s\u00e3o necessariamente confort\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Na parte de <strong>ferramentas<\/strong>, levei uma faca Morakniv, um canivete simples para cortar a comida, uma lanterna de cabe\u00e7a, uma lanterna de m\u00e3o (redund\u00e2ncia boba, ela foi e voltou sem uso), um kit para fazer fogo, que foi muito \u00fatil para acender a fogueira, 10m de paracord para fazer um varal e colocar uma lona sobre a \u00e1rea comum do acampamento, um bast\u00e3o de caminhada, um kit de primeiros socorros e um r\u00e1dio UHF\/VHF (sou radioamador classe C).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dia da partida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"975\" height=\"648\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-8.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-101\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-8.png 975w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-8-300x199.png 300w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-8-768x510.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A tropa reunida na casa do Paul\u00e3o (lado esquerdo, de p\u00e9). Foto tradicional antes da partida.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Nos encontramos as 23h na casa do Paul\u00e3o, o patriarca da trilha, que n\u00e3o est\u00e1 mais realizando a travessia, mas seus filhos e netos continuam com a tradi\u00e7\u00e3o. Tomamos um caf\u00e9 refor\u00e7ado, me zoaram com o peso da minha mochila (estava pesada mesmo), contamos piadas e iniciamos o esquenta para a aventura. \u00c0 meia noite fizemos uma breve ora\u00e7\u00e3o e embarcamos na van fretada para Evangelista de Souza.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos na esta\u00e7\u00e3o por volta de 1h da manh\u00e3. Um baita frio junto de uma garoa, mas a disposi\u00e7\u00e3o para a aventura falava mais alto. Nos despedimos do Paul\u00e3o, que ficou emocionado por n\u00e3o poder ir conosco, mas prometemos que um dia ele ir\u00e1 nos encontrar l\u00e1 embaixo ao final, e matar a saudade do amigo Z\u00e9 Pretinho, companheiro e anfitri\u00e3o do grupo por tantos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desembarcamos, pegamos as mochilas e sem pensar muito na garoa e no frio, come\u00e7amos a pernada de 5h at\u00e9 o t\u00fanel 24.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O prego no sapato<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Caminhar sobre o leito da ferrovia \u00e9 muito perigoso e requer aten\u00e7\u00e3o redobrada. As pedras, geralmente soltas, deixam a pisada inst\u00e1vel. Pe\u00e7as de manuten\u00e7\u00e3o s\u00e3o largadas pelo caminho. \u00c9 bastante comum encontrar parafusos, porcas, grampos etc. Normalmente s\u00e3o pe\u00e7as grandes e n\u00e3o oferecem risco direto para quem caminha, mas eu consegui pisar em um prego de madeira com menos de 1km de caminhada. Ao sentir a fisgada no p\u00e9, meu reflexo foi me jogar no ch\u00e3o para n\u00e3o colocar mais peso sobre o p\u00e9 potencialmente ferido. Por sorte o prego n\u00e3o perfurou meu p\u00e9, mas passou pela sola e pela palmilha e fez um pequeno arranh\u00e3o na planta do p\u00e9. Tirei o prego, removi o sapato, inspecionei, passei um swab (pequeno len\u00e7o com \u00e1lcool) para desinfetar, fiz um remendo com micropore e voltei a cal\u00e7ar a bota e retomamos a caminhada 5 minutos ap\u00f3s o ocorrido. O machucado n\u00e3o foi grave a ponto de incomodar pelo resto da jornada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A parada estrat\u00e9gica no t\u00fanel 27<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"975\" height=\"723\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-9.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-102\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-9.png 975w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-9-300x222.png 300w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-9-768x570.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Paradinha estrat\u00e9gica no t\u00fanel 27 para reagrupar e comer alguma coisa.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Caminhar na via f\u00e9rrea no seco j\u00e1 \u00e9 cansativo, imagine \u00e0 noite, sob garoa e neblina \u00e9 mais ainda. O ambiente \u00e9 muito diferente de qualquer trilha que eu tenha feito. O movimento dos trens de carga \u00e9 muito mais intenso do que eu imaginava. E a cena deles vindo com aquele farol amarelado, surgindo da neblina, vou me lembrar para sempre!<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s 2:30h de caminhada, chegamos no in\u00edcio do primeiro t\u00fanel e metade do trajeto. Neste ponto existe um recuo que permitiu reagrupar a tropa para um breve descanso. Desequipados, tomamos uma \u00e1gua, comemos alguma coisa, tiramos umas fotos e demos um tapa no conhaque com mel e lim\u00e3o para dar uma animadinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhar dentro do t\u00fanel \u00e9 um desafio \u00e0 parte. \u00c9 um ambiente que est\u00e1 sempre \u00famido, e os dormentes de madeira sempre s\u00e3o escorregadios. Tentamos apertar o passo instintivamente por conta do espa\u00e7o reduzido para se abrir caso passem dois trens ao mesmo tempo, mas \u00e9 preciso tomar cuidado com tombos. Pegamos alguns trens dentro dos t\u00faneis, mas nunca dois ao mesmo tempo. Embora haja espa\u00e7o para se abrigar, confesso que d\u00e1 um caga\u00e7o s\u00f3 de pensar nessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O fim dos trilhos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Partindo do t\u00fanel 27, seguimos em dire\u00e7\u00e3o ao t\u00fanel 24 (a numera\u00e7\u00e3o \u00e9 decrescente, pois historicamente, a linha f\u00e9rrea conecta o porto ao \u201cinterior\u201d). Este passeio de dia deve ser bem bonito pois passamos por pontilh\u00f5es e encostas bem altas. Em alguns momentos era poss\u00edvel avistar ao longe, as luzes da cidade de Mongagu\u00e1. Com 5 horas de caminhada, atravessamos o t\u00fanel 24, faltava 1h para amanhecer. Como n\u00e3o d\u00e1 pra descer no escuro, montamos uma base em um recuo no final do t\u00fanel. Esticamos uma lona para colocar as mochilas e deitar um pouco at\u00e9 o sol nascer. Alguns foram fazer um caf\u00e9 e contar piadas, mas a maioria capotou para recuperar um pouco das energias em prepara\u00e7\u00e3o para a dura descida que nos aguardava.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9u come\u00e7ou a limpar, e nos presenteou com uma vista completamente surreal das estrelas. As pessoas fazem caminhadas por diversos motivos: pelo desafio, pelo exerc\u00edcio, mas o que mais me agrada s\u00e3o as paisagens que a natureza presenteia somente \u00e0queles que se disp\u00f5em a levantar do sof\u00e1 e se conectar com ela. Eu posso te mostrar uma foto, mas te garanto que ver pessoalmente \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"663\" height=\"884\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-11.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-105\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-11.png 663w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-11-225x300.png 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 663px) 100vw, 663px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cafezinho antes de enfrentar a descida<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A aventura mais dif\u00edcil da minha vida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1023\" height=\"577\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-12.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-106\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-12.png 1023w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-12-300x169.png 300w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-12-768x433.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Seis horas da manh\u00e3, os primeiros raios de sol indicavam que estava na hora de iniciar a descida. Eu j\u00e1 tinha ouvido os relatos dos antigos por diversas vezes, mas viver aquilo seria diferente. Uma caminhada de 2,5 km, partindo de 770m de altitude, terminando a 5m do n\u00edvel do mar. Uma descida forte, que levar\u00edamos 6h para completar.<\/p>\n\n\n\n<p>Por conta da pandemia, a trilha ficou abandonada, e a natureza rapidamente fez seu papel e tomou toda a trilha nesses 2 anos de hiato. Ap\u00f3s um trabalho r\u00e1pido de reconhecimento, encontramos a trilha e iniciamos a descida. Muito barro, muito espinho e muita risada. At\u00e9 apostamos que quem ca\u00edsse na trilha pagaria uma caixa de cerveja no final. Com 50 minutos de caminhada j\u00e1 n\u00e3o tinha mais nenhum invicto. Todo mundo j\u00e1 tinha prenda para pagar no final da trilha. O esfor\u00e7o para descer de forma controlada era t\u00e3o grande que comecei a suar e sentir mais calor que na madrugada fria e molhada da noite anterior.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"586\" height=\"889\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-13.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-107\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-13.png 586w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-13-198x300.png 198w\" sizes=\"auto, (max-width: 586px) 100vw, 586px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Primeiros raios de sol saindo. Hora de levantar.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A umidade na serra do mar \u00e9 impressionante. \u00c1rvores ca\u00eddas com o tronco mais espesso que o corpo de uma pessoa, literalmente se desmanchando pela r\u00e1pida decomposi\u00e7\u00e3o que este tipo de ambiente propicia. Se equilibrar era um desafio pois al\u00e9m da forte inclina\u00e7\u00e3o, havia muitos troncos cobertos de espinhos. Luvas e um bast\u00e3o de caminhada resistente s\u00e3o essenciais para esta trilha.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"686\" height=\"639\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-14.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-108\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-14.png 686w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-14-300x279.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 686px) 100vw, 686px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Antes de chegar no acampamento, o peso da mochila come\u00e7ou a me afetar. Em um dado momento minhas pernas simplesmente n\u00e3o responderam mais e eu desabei de cansa\u00e7o. Tive que tomar um relaxante muscular forte e fazer uma pausa para poder continuar. Naquele momento parei para refletir o quanto somos pequenos diante da natureza. Eu ainda conseguia ouvir os trens passando, a menos de 2km dali. Aquele pequeno trecho de descida fortemente acidentado me destruiu de uma forma que eu n\u00e3o imaginava.<\/p>\n\n\n\n<p>Passados 10 minutos ap\u00f3s tomar o rem\u00e9dio, me coloquei de p\u00e9 e um amigo se ofereceu para levar minha mochila at\u00e9 o acampamento. Se eu insistisse em levar a mochila, eu atrasaria mais o grupo, e o hor\u00e1rio de chegar j\u00e1 estava apertado. Fui aconselhado a ceder ent\u00e3o entreguei a mochila e seguimos adiante. Levei apenas o cantil, a bolsa de cinto e o bast\u00e3o de caminhada. Em 40 minutos chegamos ao acampamento: uma pequena clareira ao lado do rio Branquinho, num ponto com uma cachoeira e piscina natural. Para quem saiu daquela descida massacrante, aquilo era um resort 5 estrelas!<\/p>\n\n\n\n<p>Era pr\u00f3ximo de 13h quando come\u00e7amos a limpar o local e montar as barracas. Dispusemos as barracas em meia lua, com uma \u00e1rvore grande ao centro onde amarramos os paracords e jogamos uma lona por cima para fazer uma \u00e1rea comum. Neste local j\u00e1 haviam sido reunidas diversas pedras para fazer a fogueira. Colhi algumas laranjas para comer junto com a refei\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, muitas frutas s\u00e3o encontradas por perto, resultado de 30 anos acampando no mesmo local.<\/p>\n\n\n\n<p>Acampamento montado, fui direto para a cachoeira. Precisava da \u00e1gua gelada para relaxar os m\u00fasculos das pernas que estavam fatigados. Aproveitei para lavar o barro das roupas e colocar para secar nas pedras. Iria continuar utilizando aquelas roupas no dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Preparei o l\u00e1men com calabresa e queijo, voltei para a \u00e1gua e comi ali mesmo enquanto relaxava na piscina natural. N\u00e3o tem vida melhor que essa!<\/p>\n\n\n\n<p>Barriga cheia e acampamento montado, resolvi tirar uma soneca, eram 16h. O pessoal foi pescar uns lambaris pra comer a noite e eu tomei um Dorfex e fui deitar um pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>Senhoras e senhores, a melhor dica para dormir bem no acampamento \u00e9 estar cansado! Apaguei \u00e0s 16:30 e fui levantar s\u00f3 as 22h quando soltaram uma bombinha atr\u00e1s da minha barraca! Eu estava perdendo o melhor da festa. Ent\u00e3o pulei pra fora da barraca e fui papear com o pessoal! Fizemos churrasco de bacon, peixe frito, tomamos uns drinks e contamos muita piada!<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"691\" height=\"555\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-15.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-109\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-15.png 691w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-15-300x241.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 691px) 100vw, 691px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Um conforto providencial no meio da selva: cheirinho de bacon assado!<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Por volta de 01:00h fomos dormir. Ajeitamos a fogueira para ela n\u00e3o apagar e nos retiramos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O segundo dia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu havia despertado \u00e0s 5:50 e comecei a arrumar as minhas coisas com anteced\u00eancia. Como passar\u00edamos por muitos cruzamentos de rio, esvaziei o bolsa de hidrata\u00e7\u00e3o na inten\u00e7\u00e3o de aliviar a minha mochila. O cantil seria enchido durante as travessias, \u00e1gua n\u00e3o faltaria no caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s seis horas da manh\u00e3 o capit\u00e3o Marcelo passou despertando a tropa. Militar reformado do Ex\u00e9rcito, ele sabia muito bem como acordar um bando de marmanjos b\u00eabados e dorminhocos.&nbsp; T\u00ednhamos que sair rigorosamente \u00e0s 7h para dar tempo de chegar no ponto de \u00f4nibus e pegar o \u00faltimo \u00f4nibus para o centro de Itanha\u00e9m. Tomamos um r\u00e1pido caf\u00e9, desmontamos acampamento e pontualmente \u00e0s 7h j\u00e1 est\u00e1vamos andando.<\/p>\n\n\n\n<p>Andamos uns 20Km at\u00e9 a aldeia TEKOA YANKA TIIM POR\u00c3. Passamos por muitas, infinitas, intermin\u00e1veis travessias de rio. Imposs\u00edvel manter os p\u00e9s secos nessa trilha. Gra\u00e7as \u00e0s dicas do meu amigo Ismael, utilizei algumas pomadas que permitiram terminar a caminhada sem nenhuma bolha nos p\u00e9s. O \u00fanico preju\u00edzo que tive foram 5 unhas que ca\u00edram devido \u00e0 press\u00e3o do cal\u00e7ado durante a descida, que exigiu muito esfor\u00e7o, mas mesmo assim, ap\u00f3s um dia inteiro com os p\u00e9s molhados, n\u00e3o tive bolhas.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira casa da aldeia, na regi\u00e3o chamada de \u201caldeia antiga\u201d, \u00e9 a casa do Sr. Veratup\u00e3. Um \u00edndio muito velho e meio brabo. Ele vive praticamente isolado do resto da tribo, que se mudou para uma regi\u00e3o afastada cerca de 1km, do outro lado do rio Itanha\u00e9m fugindo das enchentes e desmoronamentos que aconteciam na parte antiga. O Sr. Veratup\u00e3 decidiu permanecer em sua casa, desafiando toda a sorte de intemp\u00e9ries. As trombas d\u2019\u00e1gua costumam ser muito violentas naquela regi\u00e3o, pois praticamente toda a enxurrada daquela parte da serra passam pela aldeia e o rio Itanha\u00e9m (formado pelo Capivari-monos) se junta com o rio branquinho ficando muito forte ap\u00f3s qualquer chuva, sendo muito comum a transforma\u00e7\u00e3o do leito do rio a cada tempestade que ocorre.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima travessia foi a mais longa. Ela cruza o rio Itanha\u00e9m na sua parte mais larga, bem na entrada da parte nova da aldeia. Fizemos uma fila indiana e fomos em passos curtos, sempre usando o bast\u00e3o de caminhada como terceiro apoio. Havia chovido na noite anterior, mas o rio estava relativamente calmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cruzamos rapidamente a aldeia, numa marcha sem parar. Fomos orientados a n\u00e3o olhar diretamente para as \u00edndias. As crian\u00e7as olhavam em nossa dire\u00e7\u00e3o, curiosas para saber de onde v\u00ednhamos. Mas me chamou a aten\u00e7\u00e3o a organiza\u00e7\u00e3o e beleza do lugar. Tudo muito limpo e bem cuidado, da sa\u00edda da Aldeia at\u00e9 o Bar do Z\u00e9 pretinho faltavam ainda 14,5km de caminhada. O sol estava bem forte quando chegamos na pequena ponte que demarcava o fim da terra ind\u00edgena e o in\u00edcio de um gigantesco bananal.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto da caminhada, um outro colega estava colapsando de cansa\u00e7o. O sol estava realmente castigando. Eu tamb\u00e9m estava com a moral bastante baixa pois as dores nas pernas estavam voltando a incomodar bastante. Felizmente encontramos uma caminhonete carregando bananas e verduras. Paramos e pedimos carona para nosso amigo e nossas mochilas. Me aconselharam a ir junto para dar apoio e cuidar das mochilas. Eu n\u00e3o recusei pois n\u00e3o queria atrasar o grupo e sabia que eu seria o pr\u00f3ximo a colapsar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"663\" height=\"867\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-16.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-110\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-16.png 663w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-16-229x300.png 229w\" sizes=\"auto, (max-width: 663px) 100vw, 663px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Carona que caiu do c\u00e9u! Sr. Osvaldo ajudou a transpoortarmos as mochilas at\u00e9 o proximo ponto de parada.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O \u00cdndio Sr. Osvaldo e sua Esposa foram muito simp\u00e1ticos e nos ofereceram bananas e laranjas para comer. Eles estavam subindo para S\u00e3o Paulo para levar frutas e verduras para a parte alta da aldeia, que fica pr\u00f3ximo \u00e0 esta\u00e7\u00e3o Evangelista de Souza.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Bar do Z\u00e9 Pretinho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos por volta de 14h no ponto final da nossa aventura. Descarregamos as mochilas da caminhonete e nos despedimos do Sr. Osvaldo. O bar abriria apenas por volta das 17h pois o Sr. Z\u00e9 Pretinho faz feira aos domingos. T\u00ednhamos 3 horas para nos recuperar, tirar os sapatos, relaxar e torcer para nossos amigos conseguirem completar o \u00faltimo percurso ou conseguir uma carona.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s 16h eles chegaram na carretinha de um trator, que deu carona para eles nos \u00faltimos 4 km do percurso. Fizemos uma baita farra, comemos e bebemos. T\u00ednhamos que esperar o \u00f4nibus para a rodovi\u00e1ria, que chegaria \u00e0s 19h.<\/p>\n\n\n\n<p>Encerramos a nossa aventura com uma foto da tropa junto ao Sr. Z\u00e9 Pretinho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"975\" height=\"708\" src=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-17.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-111\" srcset=\"https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-17.png 975w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-17-300x218.png 300w, https:\/\/novelli.eti.br\/site_novelli\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/image-17-768x558.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ao centro o Sr. Z\u00e9 Pretinho, amigo que acolhe a tropa todos os anos a mais de 30 anos ap\u00f3s a aventura.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu me despedi com uma vontade enorme de retornar no pr\u00f3ximo ano. Mais preparado e mais experiente. Foi uma aventura fisicamente muito dif\u00edcil, mas igualmente muito gostosa de realizar. Vimos paisagens que poucos t\u00eam a chance de ver, pois s\u00e3o muito poucos que t\u00eam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e coragem para realizar uma caminhada desta. Para mim esse tipo de experi\u00eancia s\u00f3 me ajuda a dar valor \u00e0s coisas simples da vida. Podemos ter tudo, e \u00e0s vezes mesmo assim achamos que n\u00e3o temos o suficiente. Quando estamos no mato, apenas com uma mochila e barraca, cansados e doloridos, percebemos que somos insignificantes perante a grandiosidade da natureza. O melhor sono da minha vida foi dentro daquela barraca, quando deitei exausto, mas abrigado e quentinho. A melhor refei\u00e7\u00e3o foi miojo com queijo, preparado na beira do rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta aventura me marcou, e certamente considero este feito, um rito de passagem. A mudan\u00e7a de chave de ex obeso sedent\u00e1rio para uma pessoa que ap\u00f3s conhecer o Sobrevivencialismo, resolveu tomar as r\u00e9deas da vida e sair do piloto autom\u00e1tico e assumir a responsabilidade por mim e minha fam\u00edlia. Fico muito feliz e agradecido pelo convite do meu amigo Amauri, pelo carinho e companheirismo de toda a tropa e orgulhos de fazer parte desta tradi\u00e7\u00e3o t\u00e3o legal do Paul\u00e3o e sua fam\u00edlia!<\/p>\n\n\n\n<p>Termino da nossa aventura, aguardando o \u00f4nibus para a rodovi\u00e1ria de Itanha\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De uma beleza sem igual, a regi\u00e3o da serra do mar nos premia com muitas trilhas, belas paisagens e muita, muita aventura. Fui convidado por um amigo para realizar uma trilha que para ele \u00e9 uma verdadeira tradi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 33 anos que ele percorre este caminho sempre na mesma \u00e9poca do ano. 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